Como é formado um cão-guia?

Biblioteca Cão guiAmigo • Cães-guia • Formação, aprendizagem e parceria


Quando alguém vê um cão-guia acompanhando uma pessoa com deficiência visual, pode parecer que aquele animal simplesmente foi treinado para realizar determinadas tarefas.

Mas chegar até esse ponto envolve um processo muito mais amplo.

Como é formado um cão-guia?

A formação de um cão-guia envolve desenvolvimento comportamental, aprendizagem, experiências ambientais, socialização, comunicação, adaptação a diferentes situações e construção progressiva da relação entre o cão e a pessoa que será sua companheira.

Não existe apenas um caminho possível para realizar esse processo. Diferentes programas e metodologias podem utilizar estratégias, etapas e critérios distintos.

Por isso, compreender como um cão-guia é formado também significa conhecer as diferentes perspectivas existentes sobre essa formação.

Formação não é apenas treinamento

A palavra “treinamento” costuma ser utilizada para descrever o ensino de comportamentos específicos.

Entretanto, quando falamos da formação de um cão-guia, estamos diante de um processo muito mais abrangente.

O animal precisa desenvolver comportamentos adequados, aprender a lidar com diferentes ambientes, adquirir experiências variadas e construir recursos para responder às situações que poderá encontrar durante a convivência com a pessoa.

Tudo começa antes da condução

Antes de pensar no momento em que o cão estará acompanhando uma pessoa durante um deslocamento, existe uma longa etapa de desenvolvimento.

O filhote precisa conhecer o mundo.

Ele precisa ter contato progressivo com diferentes pessoas, sons, ambientes, superfícies, objetos, situações e experiências compatíveis com sua fase de desenvolvimento.

Esse processo contribui para a construção de um repertório de experiências que poderá influenciar seu comportamento futuro.

Por isso, a formação começa muito antes de o cão utilizar uma guia durante um deslocamento.

A importância da socialização

Socialização é um termo bastante utilizado quando falamos sobre desenvolvimento de cães.

De maneira geral, podemos compreender a socialização como parte do processo de exposição e aprendizagem relacionado às pessoas, animais, ambientes, objetos e situações que fazem parte da vida.

Mas socializar não significa simplesmente colocar o cão em contato com o maior número possível de estímulos.

A qualidade das experiências também importa.

Uma experiência inadequada ou excessivamente intensa pode produzir respostas diferentes de uma experiência gradual, segura e compatível com as condições do animal.

Experiência não significa exposição indiscriminada

Preparar um cão para o mundo não significa simplesmente colocá-lo diante de qualquer situação.

A formação precisa considerar idade, características individuais, capacidade de adaptação, intensidade dos estímulos, segurança e bem-estar. O objetivo é proporcionar experiências que contribuam para o desenvolvimento do animal, e não simplesmente aumentar a quantidade de situações vivenciadas.

Aprender diferentes comportamentos

Ao longo da formação, o cão pode aprender diversos comportamentos importantes para sua futura função.

Entre eles podem estar respostas relacionadas à condução, posicionamento, atenção ao ambiente, mudanças de direção, paradas, contorno de obstáculos e outras habilidades específicas.

Entretanto, esses comportamentos não devem ser compreendidos como uma simples coleção de comandos independentes.

Durante um deslocamento real, diferentes informações precisam ser consideradas simultaneamente.

O ambiente muda, obstáculos aparecem, pessoas circulam, sons acontecem e situações inesperadas podem surgir.

Por isso, a capacidade de utilizar comportamentos adequados dentro de diferentes contextos é tão importante quanto aprender cada comportamento individualmente.

O ambiente faz parte da formação

Um cão que vive apenas em ambientes tranquilos terá menos oportunidades de aprender a lidar com ambientes movimentados.

Da mesma forma, um animal que conhece apenas um determinado tipo de superfície, ruído ou rotina poderá encontrar dificuldades quando essas condições forem modificadas.

Por isso, uma formação voltada para a vida real precisa considerar a diversidade de ambientes que poderão fazer parte da rotina da dupla.

Ruas, calçadas, estabelecimentos, transportes, espaços públicos, ambientes internos e diferentes níveis de movimentação podem apresentar características muito distintas.

O objetivo não é transformar o cão em um animal que nunca reage a nada.

É ajudá-lo a desenvolver respostas adequadas diante daquilo que encontra.

A formação precisa considerar o indivíduo

Outro aspecto fundamental é que cada cão possui características próprias.

Mesmo quando determinados critérios são estabelecidos para a seleção de animais destinados à formação, diferenças individuais continuam existindo.

Alguns cães podem apresentar maior facilidade diante de determinados ambientes, enquanto outros podem precisar de mais tempo e experiências graduais para desenvolver determinadas respostas.

Por isso, acompanhar o desenvolvimento individual é fundamental.

Uma formação responsável não deve tratar todos os cães como se fossem exatamente iguais.

O objetivo não é fabricar cães iguais

Uma formação consistente precisa estabelecer critérios e objetivos, mas também precisa reconhecer as características individuais de cada animal.

Formar não significa apagar as diferenças entre os cães. Significa compreender essas diferenças e trabalhar de maneira adequada com cada indivíduo.

E onde entra a pessoa com deficiência visual?

Essa é uma das questões mais importantes quando analisamos diferentes formas de formação de cães-guia.

Em determinados modelos, grande parte da preparação do cão acontece antes de ele ser apresentado à pessoa que irá utilizá-lo.

Em outras perspectivas, a aproximação entre cão e pessoa pode acontecer mais cedo e participar de maneira mais intensa do processo.

Essas diferenças refletem escolhas metodológicas.

A Metodologia Cão guiAmigo parte da compreensão de que a relação entre cão e pessoa possui papel fundamental na formação e, por isso, a construção dessa parceria começa desde os primeiros meses de vida do cão.

Formar uma dupla é diferente de formar apenas um cão

Essa distinção está no centro da perspectiva Cão guiAmigo.

Quando pensamos apenas na formação do animal, podemos concentrar nossa atenção naquilo que ele precisa aprender.

Quando pensamos na formação da dupla, precisamos considerar também aquilo que a pessoa precisa aprender e desenvolver.

A pessoa precisa compreender o comportamento do cão, aprender a comunicar-se com ele, reconhecer suas respostas e participar ativamente da relação.

O cão, por sua vez, desenvolve comportamentos e aprende a responder às informações fornecidas pela pessoa e pelo ambiente.

Não estamos formando apenas um cão.

Estamos construindo uma parceria.

Diferentes etapas, diferentes objetivos

Embora os programas possam organizar seus processos de maneiras diferentes, podemos identificar alguns grandes componentes que costumam fazer parte da preparação de um cão destinado à função de guia.

  • Desenvolvimento inicial e experiências adequadas à idade;
  • Socialização e adaptação a diferentes ambientes;
  • Aprendizagem de comportamentos específicos;
  • Exposição progressiva a situações do cotidiano;
  • Desenvolvimento da capacidade de adaptação;
  • Preparação para deslocamentos em diferentes ambientes;
  • Construção da comunicação entre cão e pessoa;
  • Acompanhamento e avaliação do desenvolvimento;
  • Formação e adaptação da dupla.

Esses componentes não precisam acontecer de maneira absolutamente linear.

A aprendizagem acontece de forma progressiva e diferentes aspectos podem ser trabalhados simultaneamente, de acordo com o desenvolvimento do animal e com a metodologia utilizada.

Quando o cão está preparado?

Essa pergunta parece simples, mas também merece cuidado.

Não podemos avaliar a preparação de um cão apenas pela quantidade de comportamentos que ele consegue apresentar em situações controladas.

É necessário considerar sua capacidade de utilizar aquilo que aprendeu em diferentes contextos, sua adaptação aos ambientes, sua relação com a pessoa, seu comportamento e seu bem-estar.

Além disso, a preparação não significa que o cão nunca mais irá aprender.

A convivência continuará proporcionando novas experiências ao longo da vida.

O cão continua aprendendo depois da formação

Quando uma dupla começa a viver sua rotina, novas situações continuam surgindo.

Novos caminhos, novos ambientes, mudanças de rotina e diferentes experiências passam a fazer parte da história daquela relação.

Por isso, a formação inicial deve ser entendida como uma preparação para a convivência, e não como o encerramento de todo processo de aprendizagem.

A própria relação entre cão e pessoa continuará sendo construída ao longo do tempo.

A perspectiva Cão guiAmigo

A Metodologia Cão guiAmigo parte de uma filosofia própria de formação.

Nossa proposta considera que o cão deve crescer inserido em experiências que façam parte da realidade na qual irá viver e que a pessoa com deficiência visual também deve participar da construção dessa relação desde os primeiros meses de vida do animal.

Isso significa compreender a formação como um processo contínuo de desenvolvimento da dupla.

O cão aprende, a pessoa aprende e ambos desenvolvem formas de comunicação e convivência.

É a partir dessa perspectiva que começam a surgir os fundamentos que orientam a nossa metodologia.

Formar um cão-guia é preparar para a função.

Formar uma dupla é preparar para a vida.

Conclusão

A formação de um cão-guia é um processo complexo que envolve muito mais do que ensinar comportamentos específicos.

É necessário considerar desenvolvimento, aprendizagem, experiências, ambiente, características individuais, comunicação, adaptação e bem-estar.

Também é necessário reconhecer que diferentes metodologias podem organizar esse processo de maneiras diferentes.

Conhecer essas diferenças permite compreender melhor as escolhas feitas por cada abordagem e evita conclusões simplistas sobre um processo que envolve inúmeras variáveis.

Na perspectiva Cão guiAmigo, a formação possui uma característica central: a construção da parceria entre a pessoa com deficiência visual e o cão começa desde os primeiros meses de vida do animal.

Essa visão transforma a pergunta.

Em vez de perguntar apenas “como formar um cão-guia?”,

podemos perguntar: “como formar uma parceria preparada para a vida?”

É a partir dessa pergunta que podemos começar a compreender os fundamentos da Metodologia Cão guiAmigo.


Leia também

Biblioteca Cão guiAmigo
Conteúdo educativo e informativo sobre cães-guia, comportamento canino, acessibilidade e a relação entre pessoas e cães.