O cão sabe que está trabalhando? Entendendo comportamento, aprendizagem e linguagem humana

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É muito comum, quando falamos sobre cães de assistência, cães-guia ou outros cães que desempenham determinadas funções ao lado das pessoas, ouvirmos expressões como “o cão está trabalhando”, “o cão sabe quando está trabalhando” ou “ele sabe que naquele momento precisa trabalhar”.

Mas essas três afirmações não significam necessariamente a mesma coisa.

A primeira pode ser simplesmente uma maneira humana e prática de descrever uma situação. A segunda e a terceira, porém, fazem afirmações sobre aquilo que o cão compreende mentalmente.

E é justamente nessa diferença que encontramos uma questão importante para quem deseja compreender melhor o comportamento canino: até onde podemos descrever aquilo que observamos e a partir de que ponto começamos a interpretar a experiência do animal usando conceitos humanos?

Uma pergunta simples, mas importante

Quando dizemos que um cão “sabe que está trabalhando”, estamos descrevendo um comportamento que podemos observar ou estamos atribuindo ao animal um conceito humano sobre o significado daquela atividade?

O que significa “trabalhar” para nós?

Para os seres humanos, a palavra trabalho possui um significado bastante amplo. Podemos falar em profissão, obrigação, remuneração, responsabilidade, horário de trabalho, descanso, férias, aposentadoria e diversos outros conceitos relacionados à atividade profissional.

Quando uma pessoa diz que está trabalhando, normalmente existe uma compreensão bastante complexa sobre o que essa afirmação significa.

Mas precisamos ter cuidado para não transferir automaticamente toda essa estrutura conceitual para o comportamento de um cão.

Isso não significa que o cão não compreenda situações, não aprenda comportamentos ou não consiga diferenciar contextos. Pelo contrário. A pesquisa em cognição canina demonstra que os cães possuem capacidades sofisticadas de aprendizagem, memória, comunicação e processamento de informações relacionadas ao ambiente e às interações com seres humanos.

Então o cão não entende nada?

De maneira nenhuma.

Essa seria uma conclusão tão equivocada quanto afirmar que o cão necessariamente compreende o conceito humano de “trabalho”.

Cães são capazes de aprender associações, reconhecer sinais, responder a gestos humanos, discriminar situações e utilizar informações do ambiente para orientar seu comportamento. Estudos sobre cognição canina mostram, inclusive, habilidades notáveis na comunicação entre cães e seres humanos.

O ponto central é outro: uma capacidade real do cão não precisa ser explicada por meio de um conceito humano.

Exemplo simples

Imagine um cão que, ao receber determinado equipamento, entrar em determinado ambiente ou perceber determinados sinais de seu tutor, passa a apresentar um conjunto específico de comportamentos.

Podemos observar claramente essa mudança de comportamento. Podemos estudar como ela foi aprendida. Podemos investigar quais estímulos estão envolvidos. Mas não devemos transformar automaticamente essa observação na afirmação de que o cão pensa: “agora começou meu expediente”.

Contexto, aprendizagem e associação

Grande parte do comportamento animal pode ser compreendida observando as relações entre estímulos, experiências, aprendizagem, consequências e contexto.

Um cão pode aprender que determinados ambientes, objetos, sinais, pessoas ou rotinas estão associados a determinados comportamentos. Também pode desenvolver expectativas diante de situações que se repetem.

Isso é muito diferente de dizer que ele possui necessariamente uma representação humana daquele contexto.

A literatura científica sobre cães de trabalho mostra justamente a importância de compreender cognição, aprendizagem, motivação e características individuais para entender o desempenho desses animais. O sucesso de um cão em uma determinada atividade envolve sua capacidade de aprender relações ambientais e sociais e de aplicar o que aprendeu em diferentes contextos.

O cão pode reconhecer que determinada situação é diferente?

Sim. Essa é uma possibilidade muito mais compatível com aquilo que podemos investigar cientificamente.

Um cão pode aprender que determinadas situações exigem determinados comportamentos. Pode reconhecer sinais associados a uma atividade. Pode demonstrar expectativa diante de uma rotina conhecida. Pode apresentar comportamentos diferentes conforme o ambiente e as pessoas envolvidas.

Tudo isso pode ser observado e estudado.

O que não devemos fazer é dar um salto lógico e concluir que, porque o cão diferencia contextos, ele necessariamente compreende esses contextos utilizando conceitos humanos.

E onde entra o antropomorfismo?

Chamamos de antropomorfismo, de maneira geral, a atribuição de características, intenções ou estados mentais humanos a outros animais.

O antropomorfismo é extremamente comum na relação entre seres humanos e cães. Isso acontece porque convivemos intimamente com eles e naturalmente tentamos interpretar seus comportamentos a partir de nossas próprias experiências.

A própria ciência estuda como os seres humanos atribuem estados mentais aos animais. Essa tendência pode ocorrer de maneira automática e pode influenciar a forma como interpretamos o comportamento animal.

Isso não significa que toda utilização de linguagem humana para falar sobre animais seja necessariamente errada. Em determinadas situações, ela pode ser uma forma prática de comunicação.

O problema aparece quando uma expressão conveniente passa a ser tratada como uma certeza científica sobre aquilo que acontece na mente do animal.

Descrever não é o mesmo que interpretar

Descrição: “Quando recebe determinado sinal, o cão passa a apresentar os comportamentos aprendidos para aquela situação.”

Interpretação: “O cão sabe que começou a trabalhar.”

A primeira afirmação pode ser investigada diretamente por meio da observação do comportamento. A segunda exige uma conclusão sobre o estado mental do animal que não pode ser estabelecida simplesmente pela observação daquele comportamento.

Mas os cães entendem palavras e sinais humanos?

Sim. E esse é justamente um dos motivos pelos quais a questão é tão interessante.

Cães demonstram capacidades relevantes para compreender diferentes formas de comunicação humana. Pesquisas mostram que eles conseguem utilizar gestos, como apontar, para localizar objetos ou recursos e que possuem habilidades sociais particularmente desenvolvidas na interação com seres humanos.

Pesquisas mais recentes também encontraram evidências de processamento semântico de determinadas palavras familiares associadas a objetos, indicando que cães podem formar representações mentais relacionadas a palavras conhecidas.

Isso demonstra que a cognição canina é muito mais sofisticada do que uma simples resposta mecânica a estímulos.

Mas reconhecer palavras, sinais e relações aprendidas não significa automaticamente possuir conceitos humanos abstratos sobre profissão, dever, expediente ou trabalho.

E os cães gostam de “trabalhar”?

Essa é outra expressão bastante utilizada e que também merece cuidado.

Um cão pode demonstrar entusiasmo, interesse, persistência ou disposição diante de determinada atividade. Pode buscar espontaneamente uma interação, demonstrar expectativa ou permanecer engajado em uma tarefa.

Esses comportamentos são importantes e podem fornecer informações sobre sua motivação e seu estado comportamental.

Entretanto, dizer que o cão “gosta de trabalhar” pode significar coisas diferentes dependendo do contexto. Pode ser uma maneira resumida de dizer que o cão demonstra motivação ou interesse por determinada atividade.

Mais uma vez, o cuidado está em não transformar uma descrição útil em uma afirmação sobre uma experiência mental humana que não conseguimos observar diretamente.

O que isso muda quando falamos de cães-guia?

Muda bastante.

Quando compreendemos que o cão aprende por meio de experiências e que seu comportamento depende de contexto, comunicação, motivação e aprendizagem, passamos a olhar para a formação de maneira mais cuidadosa.

Em vez de perguntar apenas “como fazer o cão cumprir determinada função?”, podemos também perguntar:

  • O que o cão está aprendendo?
  • Quais sinais está utilizando para orientar seu comportamento?
  • Como ele percebe o ambiente?
  • Quais experiências estão influenciando suas respostas?
  • O comportamento observado é consistente em diferentes contextos?
  • Estamos descrevendo aquilo que observamos ou interpretando aquilo que imaginamos que o cão pensa?

A perspectiva do Cão guiAmigo

No Cão guiAmigo, essa distinção é especialmente importante porque nossa forma de compreender a relação entre cão e pessoa procura partir do comportamento observado e da construção da parceria.

Não precisamos afirmar que um cão possui conceitos humanos para reconhecer sua inteligência, sua capacidade de aprendizagem, sua sensibilidade ao ambiente ou sua importância na relação com uma pessoa.

Pelo contrário. Quanto melhor compreendemos a espécie que está diante de nós, menos precisamos projetar nela conceitos humanos para explicar aquilo que ela faz.

Essa é uma das razões pelas quais defendemos uma comunicação cuidadosa. Nossa intenção não é diminuir o cão atribuindo menos capacidade a ele, mas respeitar sua forma própria de perceber, aprender e interagir com o mundo.

Uma forma mais precisa de falar

Em vez de afirmar que “o cão sabe que está trabalhando”, podemos dizer que “o cão aprendeu a apresentar determinados comportamentos em determinados contextos”.

Em vez de afirmar simplesmente que “ele sabe que precisa trabalhar”, podemos investigar quais sinais, experiências e aprendizagens estão relacionados àquele comportamento.

Essa mudança pode parecer pequena na linguagem, mas representa uma diferença importante na forma como interpretamos o animal.

Isso significa que nunca podemos falar sobre o que o cão sente ou pensa?

Não. A ciência do comportamento e da cognição animal investiga justamente diferentes aspectos da experiência dos animais.

Cães apresentam estados emocionais, capacidades cognitivas, preferências e diferenças individuais que podem ser estudados por diferentes métodos científicos. Pesquisas sobre bem-estar, por exemplo, utilizam métodos comportamentais e cognitivos para investigar aspectos da experiência dos cães.

A questão é outra: precisamos distinguir entre uma hipótese cientificamente investigável e uma certeza baseada apenas na nossa interpretação cotidiana.

É perfeitamente legítimo investigar se determinado comportamento está associado a motivação, expectativa, excitação, frustração ou outras variáveis. O que não é adequado é presumir automaticamente que o animal possui exatamente a mesma interpretação que um ser humano teria naquela situação.

Conclusão

A pergunta “o cão sabe que está trabalhando?” parece simples, mas nos leva a uma questão muito maior: como podemos compreender o comportamento de um animal sem confundir aquilo que observamos com aquilo que imaginamos?

Cães são capazes de aprender, memorizar, reconhecer sinais, utilizar informações do ambiente, comunicar-se com seres humanos e adaptar seu comportamento a diferentes situações. A ciência da cognição canina mostra que estamos diante de animais com capacidades muito mais complexas do que uma simples visão mecânica do comportamento poderia sugerir.

Ao mesmo tempo, reconhecer essas capacidades não significa atribuir automaticamente ao cão conceitos humanos como profissão, expediente ou obrigação.

Por isso, no Cão guiAmigo, preferimos uma linguagem que procure separar o comportamento que podemos observar da interpretação que fazemos sobre ele.

Talvez o cão não precise saber que está “trabalhando” para fazer aquilo que aprendeu a fazer. Talvez a pergunta mais interessante seja outra:

O que o cão aprendeu, como ele aprendeu e o que está acontecendo com ele enquanto realiza aquele comportamento?

É a partir dessas perguntas que podemos começar a construir uma compreensão mais cuidadosa, respeitosa e cientificamente responsável sobre os cães que compartilham conosco funções tão importantes.


Leia também


Fontes e leituras recomendadas

  • Hare, B.; Ferrans, M. — Is cognition the secret to working dog success?, Animal Cognition.
  • Kaminski, J.; Nitzschner, M. — Do dogs get the point? A review of dog-human communication ability.
  • Miklósi, Á.; colaboradores — pesquisas e revisões sobre cognição e comportamento social de cães.
  • Pesquisas contemporâneas sobre cognição, comportamento e bem-estar canino.

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