Biblioteca Cão guiAmigo • Cães-guia • Parceria, comunicação e autonomia
Quando ouvimos a expressão “cão-guia”, é natural que a primeira imagem que venha à mente seja a de um cão conduzindo uma pessoa com deficiência visual durante seus deslocamentos.
Essa associação não está errada. A mobilidade é uma das funções mais importantes desempenhadas por um cão-guia.
Mas será que ela explica tudo o que existe nessa relação?
Um cão que acompanha uma pessoa durante anos, participa de sua rotina, aprende seus sinais, adapta seus comportamentos a diferentes situações e estabelece com ela uma relação de confiança pode ser compreendido apenas pela função que exerce durante determinados momentos do dia?
No Cão guiAmigo, acreditamos que não.
Para compreender verdadeiramente um cão-guia, precisamos olhar para algo maior do que a condução: precisamos compreender a parceria.
A função não define toda a relação
O termo “cão-guia” identifica uma função importante. Entretanto, uma função não descreve necessariamente toda a experiência de um animal nem toda a relação construída entre ele e a pessoa que o acompanha.
Muito além da condução
Um cão-guia participa de muito mais situações do que aquelas em que está auxiliando diretamente no deslocamento.
Ele convive com a pessoa em casa, participa de momentos de descanso, acompanha atividades cotidianas, interage com diferentes ambientes e pessoas e desenvolve, ao longo do tempo, um repertório comportamental relacionado às experiências que vivencia.
A relação não acontece apenas quando existe uma necessidade de deslocamento.
Existe uma vida compartilhada.
E essa vida compartilhada influencia a maneira como cão e pessoa aprendem a se comunicar, antecipar situações, reconhecer sinais e responder às necessidades de cada contexto.
O que chamamos de parceria?
A palavra parceria pode ser utilizada de muitas maneiras. No contexto do Cão guiAmigo, ela representa uma relação construída progressivamente entre a pessoa e o cão.
Essa relação envolve convivência, comunicação, aprendizagem, confiança e adaptação.
Não significa imaginar que cão e pessoa possuem exatamente a mesma compreensão sobre aquilo que estão fazendo.
Como vimos no artigo “O cão sabe que está trabalhando?”, precisamos ter cuidado para não atribuir automaticamente ao cão conceitos humanos apenas porque utilizamos determinadas palavras para descrever seu comportamento.
Da mesma maneira, falar em parceria não significa afirmar que cão e pessoa possuem uma compreensão idêntica da relação.
Significa reconhecer que os dois participam ativamente de uma relação na qual o comportamento de um influencia o outro.
Comunicação acontece nos dois sentidos
Quando pensamos em um cão-guia, muitas vezes imaginamos a comunicação como algo que acontece apenas da pessoa para o cão: o tutor fornece um comando e o cão responde.
A realidade da convivência é muito mais ampla.
O cão também produz informações por meio de seus comportamentos, movimentos, postura corporal, direção do olhar, velocidade de deslocamento e inúmeras outras manifestações que podem ser percebidas e interpretadas pela pessoa que convive com ele.
A pessoa, por sua vez, aprende progressivamente a reconhecer essas informações.
Assim, a comunicação deixa de ser compreendida apenas como uma sequência de comandos e respostas e passa a ser vista como uma troca contínua de informações entre cão e pessoa.
Uma comunicação construída na convivência
Quanto mais tempo cão e pessoa convivem, maiores são as oportunidades para que ambos aprendam padrões de comportamento do outro.
Essa familiaridade pode tornar a comunicação mais eficiente, porque a pessoa aprende a reconhecer determinadas respostas do cão e o cão aprende a responder aos sinais presentes naquele contexto.
Confiança não é apenas obedecer
Outro conceito que merece atenção é a confiança.
É comum relacionarmos um cão confiável à capacidade de executar corretamente aquilo que foi ensinado. Essa característica é importante, mas confiança pode envolver muito mais do que execução.
Para uma pessoa com deficiência visual, deslocar-se ao lado de um cão significa lidar continuamente com ambientes, obstáculos, mudanças de direção, ruídos, pessoas, veículos, superfícies e situações imprevisíveis.
Nesse contexto, a previsibilidade da comunicação e a capacidade de ambos responderem adequadamente às mudanças do ambiente são fundamentais.
A confiança é construída pela experiência.
Ela cresce quando a pessoa aprende a reconhecer o comportamento do cão e quando o cão aprende a reconhecer os sinais e padrões presentes na relação.
Mobilidade não é apenas deslocamento
Quando falamos em mobilidade, também precisamos tomar cuidado para não reduzir o conceito simplesmente a “ir de um lugar para outro”.
Para uma pessoa com deficiência visual, mobilidade está profundamente relacionada à autonomia, à possibilidade de fazer escolhas, acessar ambientes, participar da sociedade e organizar sua própria rotina.
Nesse contexto, o cão pode participar de uma relação que contribui para ampliar as possibilidades de deslocamento da pessoa.
O objetivo não é substituir a pessoa nem retirar dela a responsabilidade pelas próprias decisões.
O objetivo é construir condições para que ela possa exercer sua autonomia contando com um companheiro canino preparado para aquela relação.
Cão e pessoa não são iguais — e isso é justamente o interessante
Falar em parceria não significa transformar o cão em uma pequena pessoa.
Cão e ser humano possuem capacidades, necessidades, formas de comunicação e maneiras de perceber o ambiente diferentes.
Essa diferença precisa ser respeitada.
Uma parceria saudável não depende de imaginar que o cão pensa exatamente como o ser humano. Ela depende de compreender aquilo que cada um é capaz de perceber, aprender e comunicar.
É justamente por serem diferentes que a relação pode se tornar tão rica.
O ambiente também faz parte da parceria
Um cão não aprende a interagir com a pessoa em um vazio.
Ele aprende dentro de ambientes reais, diante de diferentes estímulos e experiências.
Ruas, calçadas, estabelecimentos, transportes, espaços públicos, residências e diferentes situações sociais apresentam características próprias.
Por isso, compreender a parceria também significa compreender o ambiente no qual ela acontece.
Quanto mais rica e diversificada for a experiência do cão dentro de limites adequados ao seu desenvolvimento e bem-estar, maiores podem ser as oportunidades de aprendizagem e adaptação.
A perspectiva Cão guiAmigo
A filosofia Cão guiAmigo parte de uma ideia fundamental: a formação da parceria não precisa começar somente quando o cão já está pronto para desempenhar uma determinada função.
Nossa proposta considera a importância da convivência desde os primeiros meses de vida do animal, permitindo que a relação seja construída progressivamente.
Nesse processo, o cão não é tratado apenas como um animal que precisa aprender uma sequência de comportamentos para posteriormente cumprir uma função.
Ele é compreendido como um indivíduo em desenvolvimento, que aprende por meio das experiências que vivencia e cuja relação com a pessoa também se desenvolve ao longo do tempo.
Por isso, falamos em construção da parceria.
Não porque acreditamos que cão e pessoa sejam iguais, mas porque reconhecemos que ambos participam de uma relação que será construída, ajustada e aperfeiçoada durante a convivência.
Uma mudança de perspectiva
Talvez a pergunta não deva ser apenas:
“Como ensinar um cão a guiar uma pessoa?”
Mas também:
“Como construir uma relação na qual cão e pessoa aprendam a compreender e responder um ao outro?”
O cão-guia continua sendo um cão
Essa afirmação pode parecer óbvia, mas ela é extremamente importante.
Antes de ser chamado de cão-guia, o animal continua sendo um cão. Possui necessidades comportamentais, sociais e físicas próprias da espécie. Precisa descansar, brincar, explorar, interagir, alimentar-se adequadamente e ter suas necessidades de bem-estar respeitadas.
A existência de uma função importante não elimina essas necessidades.
Pelo contrário: quanto mais compreendemos o cão como indivíduo, mais condições temos de construir uma relação equilibrada e respeitosa.
Uma relação para além da função
Quando uma pessoa convive diariamente com um cão, a relação construída ultrapassa os momentos em que determinado comportamento é necessário.
Existe convivência.
Existe comunicação.
Existe aprendizagem.
Existe adaptação.
Existe confiança.
E existe uma história que vai sendo construída ao longo do tempo.
É por isso que, no Cão guiAmigo, entendemos que falar simplesmente em “um cão que guia” pode ser insuficiente para explicar a dimensão dessa relação.
Conclusão
Um cão-guia desempenha uma função extremamente importante para a mobilidade de uma pessoa com deficiência visual. Mas essa função representa apenas uma parte de uma relação muito mais ampla.
O cão aprende, a pessoa aprende, o ambiente apresenta desafios e ambos desenvolvem formas de comunicação ao longo da convivência.
Compreender essa realidade nos ajuda a abandonar uma visão excessivamente simplificada na qual o cão aparece apenas como aquele que “guia” e a pessoa apenas como aquela que “é guiada”.
Existe uma relação muito mais dinâmica.
No Cão guiAmigo, chamamos essa construção de parceria.
Uma parceria que respeita as diferenças entre as espécies, valoriza a autonomia da pessoa, considera o comportamento do cão e reconhece que a convivência é parte fundamental do desenvolvimento dessa relação.
Porque, no fim das contas, compreender um cão-guia é muito mais do que compreender como ele conduz.
É compreender a relação que permite que cão e pessoa caminhem juntos.
Leia também
- O que é um cão-guia? Muito além de conduzir uma pessoa
- O cão sabe que está trabalhando? Entendendo comportamento, aprendizagem e linguagem humana
- Biblioteca Cão guiAmigo
- Conheça a Metodologia Cão guiAmigo
Fontes e leituras recomendadas
Este artigo apresenta uma abordagem conceitual sobre a relação entre pessoas e cães-guia. Para aprofundamento, recomendamos a consulta a pesquisas e publicações científicas sobre comportamento canino, cognição, aprendizagem, comunicação entre espécies, cães de assistência, mobilidade e bem-estar animal.
Biblioteca Cão guiAmigo
Conteúdo educativo e informativo sobre cães-guia, comportamento canino, acessibilidade e a relação entre pessoas e cães.